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Justina Fiori | Postado em 13.02.2021 às 22:56h
Justina Fiori

O memorial do descaso

O Memorial Rondon continua abandonado pelo Poder Público seis anos após a sua inauguração. O projeto começou a ser pensado em 1997, a obra começou em 2001, mas só foi concluída em 2015 a um custo de R$ 3 milhões. A inauguração foi uma festa que reuniu autoridades, visitantes e moradores de Mimoso, distrito de Santo Antônio de Leverger e terra natal do ilustre mato-grossense marechal Cândido Mariano Rondon.

Hoje, o que se vê é o abandono, que só não é total porque amigos e descendentes do marechal resolveram assumir os cuidados do prédio. Andar pelo local exige alguns cuidados: teias de aranha se acumulam pelas paredes e telhados, o piso de madeira dá sinais de deterioração e acumula fezes das aves que fazem seus ninhos por toda parte e o mato toma conta dos espaços livres. 

Janelas e portas estão enferrujadas e nem os bebedouros funcionam.

Os painéis com fotos antigas das andanças do marechal Rondon, que estavam lá na inauguração, continuam no mesmo espaço, mas já em visível estado de deterioração e outras fotos estão despencando das paredes, confirmando que o espaço cultural nunca chegou a funcionar, confirmando a falta de planejamento do Poder Público.

A integração ao ambiente local permite que bois e cavalos usem a parte de baixo do memorial para descansar e aproveitar a sombra – tão valiosa no calor registrado nesta região do Brasil.

Somente na parte superior do prédio há um espaço mais preservado, graças ao desprendimento de moradores da região, que formaram uma Associação de Amigos da Sala de Memória Rondon e Familiares. Uma dessas pessoas é dona Deuzita Rodrigues Querobina, que se dedica a cuidar de um pequeno acervo de livros, fotos e objetos que esperam por visitantes. Para retirar as teias de aranha, ela mesma confecciona vassouras com a vegetação local, mas conta que não consegue atingir os locais mais altos e confessa já não ter idade para um trabalho desses. Apenas alguns banheiros funcionam e o material de limpeza é comprado mediante a doação de moradores da região.

Dona Deusita tem um livro para registrar os dados dos visitantes, que chegam a 300 por mês. Muitos são de outros países que ouviram falar das histórias do marechal Rondon e esperavam encontrar ali um pouco do que foi a saga desse brasileiro. Que decepção!

Mas ela não desiste e sonha com a instalação de ar-condicionado, a limpeza e restauração do local para poder exibir filmes e documentários sobre Rondon e ver o livro de registro de visitantes crescer cada vez mais.

De terça a domingo, ela acorda cedo e se dedica a cuidar da sala. Para ajudar sua renda, instalou uma barraquinha no piso inferior, onde vende doces, geleias e outros produtos. Nos finais de semana, conta com o apoio do professor Antônio Luiz Gomes Lucas de Amorim e de sua esposa, Ivanete Mezacasa, que trabalham numa escola em Santo Antônio de Leverger e, nos finais de semana, cuidam do memorial

A esperança se renova recentemente com o anúncio de que uma emenda do senador Wellington Fagundes vai proporcionar a restauração do memorial e sua transformação em um centro de pesquisa do bioma pantanal, envolvendo a Universidade Federal de Mato Grosso, Instituto Federal e a Unemat.

A esperança é a última que morre!!

*Justina Fiori é historiadora e jornalista